Em uma das páginas do diário de minha avó Alice, datada de dezembro de 1961, encontrei duas passagens que parecem falar diretamente sobre os desafios e as alegrias de sua vida. A primeira era de São Francisco de Sales, santo e filósofo do século XVI conhecido por suas reflexões sobre a fé e a vida, que dizia: “Que será preferível? Ter rosas e ter espinhos, ou não ter rosas para não ter espinhos?”. Logo abaixo, estava uma citação da escritora brasileira Carmem Silva, celebrada por sua visão delicada sobre a vida: “A felicidade é feita de pequenas alegrias.”
Essas palavras, tão cuidadosamente registradas pela minha avó, refletem bem os valores e as escolhas que marcaram sua trajetória. Ela era uma mulher que vivia intensamente cada momento, aceitando, com coragem, os desafios que encontrava pelo caminho.
Na nossa jornada, ao lado das pessoas que amamos, deparamos tanto com “rosas” quanto com “espinhos”, assim como aconteceu com a minha avó. Há as alegrias que florescem nas pequenas e grandes conquistas da vida, mas também os desafios, as mágoas e os desentendimentos, inevitáveis em qualquer convivência.
Ao longo dos anos, minha avó e seus familiares optaram por acolher tanto os momentos bons, quanto os desafiadores, sabendo que ambos fazem parte do que significa viver e amar plenamente.
Assim também devemos enfrentar um momento de ruptura. O divórcio, por exemplo, embora doloroso, não deve apagar as memórias boas que um dia uniram o casal. São as rosas, ainda que tenham espinhos, que nos fazem crescer, e são os filhos, frutos do amor que existiu, que eternizam essas boas lembranças. O amor que um dia floresceu entre o casal permanece nas crianças e essa é uma conexão que dura para sempre. Por isso, nos momentos de ruptura, é essencial reconhecer o que foi vivido de bom, para que as memórias felizes e as raízes criadas não sejam manchadas por ressentimentos.
A atitude da minha avó Alice nos ensina que, mesmo quando um casamento termina, as lembranças do que um dia foi belo e significativo não devem ser descartadas. Ao contrário, elas podem trazer força e harmonia. Se os espinhos são inevitáveis, as rosas que já floresceram nos lembram de tudo que valeu a pena. Viver esse período com respeito, focando no que foi positivo, permite que o relacionamento se transforme sem amargura, especialmente quando há filhos envolvidos. Eles merecem crescer em um ambiente onde o carinho e o cuidado prevaleçam, mesmo que o amor entre o casal tenha seguido outro caminho.
Essa valorização do passado nos ajuda a construir um presente mais harmonioso e a evitar conflitos, pois, ao honrarmos as lembranças, cultivamos um futuro mais leve e respeitoso. As boas memórias se tornam sementes para o diálogo, para a compreensão, e, acima de tudo, para que o respeito floresça novamente. Minha avó nos mostra que, apesar das separações, a felicidade pode continuar a ser feita de pequenas alegrias.
Há sempre uma escolha entre enxergar apenas o lado negativo da situação ou cultivar as memórias boas e as pequenas alegrias vividas. Mesmo em momentos de separação, lembranças de dias bons podem servir como um antídoto contra o desgaste e o ressentimento, facilitando um encerramento respeitoso e menos doloroso.
Com suas anotações e memórias, minha avó nos mostra que a verdadeira felicidade não vem apenas das grandes conquistas, mas das pequenas alegrias diárias, do apoio das pessoas próximas e das lembranças que escolhemos guardar. Em vez de apenas evitar os espinhos, ela preferiu viver intensamente cada rosa que cruzou seu caminho.
E, talvez, essa seja a lição mais preciosa que ela deixou: que viver plenamente as rosas e reconhecer os espinhos como parte dessa jornada é o que nos ajuda a construir uma herança de respeito e amor. Essa mensagem de São Francisco de Sales, que encontrei no diário da minha avó, não era apenas uma filosofia distante; era um conselho sutil e profundo sobre como encarar a vida e a família, mesmo em tempos de perda e separação, com a coragem de quem sabe que as rosas sempre merecem ser celebradas.
Compartilhe suas lembranças e reflexões sobre como as pequenas alegrias moldaram sua vida. Sua história pode inspirar outros a reconhecerem a beleza que floresce mesmo em meio aos desafios.




