CONEXÕES SEGURAS: CARTAS DO PASSADO, LIÇÕES PARA O DIGITAL

Minha avó, Alice, era uma entusiasta das cartas. Em tempos em que as palavras precisavam viajar fisicamente, ela encontrava segurança e charme nesse processo. Cada carta para seu irmão, que morava em Porto Alegre, era cuidadosamente escrita, como se costurasse sentimentos em papel. Suas cartas de aniversário para mim também eram verdadeiras obras de arte, cheias de versos das poesias que adorava e de conselhos que ainda trago comigo.

Escrever cartas, no entanto, virou coisa do passado. Mas de um passado não tão distante assim. A comunicação mudou rapidamente e, atualmente, vivemos na era das redes sociais e mensagens instantâneas. E essa nova forma de comunicação também já é adotada por crianças e adolescentes, que cada vez mais cedo têm acesso ao mundo digital. Hoje, a preocupação dos pais e da sociedade como um todo gira em torno dos riscos digitais, que incluem desde a exposição a conteúdos impróprios até questões de privacidade e segurança. No último “Família em Foco”, eu e a psicóloga Renata Leão Moreira debatemos exatamente esse assunto: como proteger nossas crianças nesse ambiente vasto e frequentemente imprevisível? Esse é um desafio constante, pois com apenas um clique, pequenos deslizes podem ter grandes consequências.

Apesar disso, enquanto navegamos por essa nova realidade, as lições do passado ainda oferecem uma visão prática sobre como manter relações seguras e autênticas. O modo seguro e deliberado de comunicação “do passado” preservava a intimidade e a autenticidade, algo que muitas vezes perdemos na comunicação digital.

Ao lembrar sobre a forma como minha avó se comunicava, fica evidente a necessidade de resgatarmos certos hábitos em nossas famílias. Precisamos cultivar, em nossos lares, um espaço de comunicação seguro e intencional para as crianças e adolescentes de hoje. Incentivando a escrita de diários ou cartas, por exemplo, podemos oferecer uma alternativa divertida, permitindo que eles expressem suas emoções sem o temor de exposição indevida. Promover atividades que combinem o digital com o tradicional também pode ser bastante válido. Que tal as pessoas de uma mesma família escrever cartas umas para as outras e depois conversar sobre isso em videoconferências?

Além disso, é fundamental ensinar os jovens a discernir o conteúdo que consomem e compartilham online. Isso pode ser feito através de conversas regulares sobre segurança digital e incentivando um ambiente onde eles se sintam confortáveis para compartilhar suas dúvidas e preocupações.

Enquanto o mundo muda, os valores fundamentais da comunicação — intimidade, autenticidade e segurança — continuam tão relevantes quanto eram na época da minha avó Alice. Ao integrar essas lições ao nosso cotidiano digital, podemos não apenas proteger nossas crianças, mas também garantir que a simplicidade e a beleza da comunicação sincera não se percam. O desafio está em encontrar o equilíbrio entre o passado e o presente, buscando, sempre, uma comunicação genuína e segura.

Lílian Gaspar

Advogada | Família e Sucessões

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Sobre mim

Olá! Eu sou a Lílian

Bacharel em Direito pela Faculdade de Direito da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, turma de 2005; especialista em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2009; mestra em Direito Processual Civil pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2014; advogada, sócia do escritório Henrique & Gaspar Sociedade de Advogados.

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