Setembro é um mês marcante para mim. Este ano, no último dia 04, meu projeto Alice em Versos completou 1 ano de existência. Ele nasceu para compartilhar as histórias da minha família, especialmente as que envolvem minha avó Alice, como forma de mantê-la viva em nossas memórias. Agora, no dia 25, setembro se torna ainda mais marcante: completam-se 29 anos desde que ela partiu. Esta é uma data de lembranças fortes, cheia de emoções, e hoje vou contar como foram aqueles últimos dias ao lado dela, lá em setembro de 1996.
Naquele ano, setembro começou com festas. Celebramos, no dia 16, o aniversário de 19 anos do meu irmão, e minha avó Alice, como sempre, estava presente, cheia de sorrisos e amor. Poucos dias depois, no entanto, ela começou a apresentar sintomas de gripe. No início, parecia algo leve, mas o tempo foi passando e a tosse se agravou. Meus pais insistiam para que ela fosse ao pronto socorro, mas minha avó sempre foi avessa a hospitais.
No domingo, 22 de setembro, a situação piorou consideravelmente. Sua tosse era tão intensa que eu quase não consegui dormir no quarto ao lado. Na segunda-feira de manhã, mesmo assim, seguimos com nossa rotina. Antes de ir para a escola, fiz o que sempre fazia: dei um beijo de despedida. Nesse momento, ela segurou meu rosto com suas mãos, sempre tão carinhosa, e disse: “É uma delícia receber seu beijo todas as manhãs; é isso que me faz feliz.”
Minha avó tinha essa capacidade única de transformar os gestos mais simples em momentos cheios de amor. E, embora ela fosse sempre carinhosa e amorosa, naquele dia sua atitude e suas palavras me marcaram de uma forma diferente. No caminho para a escola, fiquei reflexiva e lembro que pedi a Deus que a curasse logo.
Quando voltei para casa depois da escola, estranhei sua ausência. Foi quando meus pais explicaram que, após muita insistência, minha mãe conseguiu levá-la ao pronto-socorro. Lá, os médicos diagnosticaram pneumonia e decidiram interná-la. Fiquei preocupada, mas otimista, porque acreditava que aquilo era apenas uma etapa para que ela ficasse bem.
Na terça-feira, meu pai e meu irmão foram visitá-la no hospital e trouxeram notícias animadoras: ela estava melhorando. Os médicos inclusive disseram que ela provavelmente receberia alta no dia seguinte, quarta-feira. Quando soube disso, fiquei profundamente aliviada. Naquela noite, dormi tranquila, já ansiosa para vê-la em casa novamente.
Acordei, na quarta-feira, radiante. Eu tinha motivos para isso: durante o dia, iria a um passeio com a escola assistir a uma peça de teatro em São Paulo, e, à noite, tinha certeza de que encontraria minha avó em casa. Antes de sair para o passeio, pedi às minhas tias-avós, Dada e Cema, que estavam em casa porque iriam visitá-la no hospital, que dessem um beijo por mim e que dissessem que eu estava ansiosa para reencontrá-la à noite.
Passei o dia empolgada. Contei para as minhas amigas, cheia de alegria, que minha avó receberia alta naquele dia e que estávamos todos aliviados e felizes com a sua recuperação. Mas a volta daquele passeio trouxe uma realidade que eu não esperava, nem estava preparada para enfrentar.
Quando saí do ônibus escolar, quem veio me buscar não foram os meus pais, mas meu irmão e minha prima. Estranhei imediatamente e meu coração começou a se apertar. Durante o trajeto para casa, eles me deram a notícia: minha avó, ao invés de receber alta, havia falecido.
Naquele momento, meu mundo desabou. Todo o alívio e a felicidade que senti ao longo do dia se transformaram em uma dor esmagadora. Para piorar, senti uma enorme culpa. Como eu pude estar tão feliz naquele dia enquanto ela partia?
Chegando em casa, me deparei com um cenário de despedida: vizinhos, parentes e amigos estavam todos lá, mas tudo parecia distante para mim.
O velório aconteceu naquela mesma noite. Até então, eu não tinha derramado nenhuma lágrima. Mas, assim que vi minha avó no caixão, com o rosto sereno e em paz, a dor foi inevitável e as lágrimas surgiram. Era difícil processar que aquela seria a última vez que a veria. Com apenas 14 anos, aquele adeus parecia um peso impossível de carregar.
No dia seguinte, seguimos para o Crematório da Vila Alpina para cumprir a última vontade dela: ser cremada. Minha avó sempre foi extremamente prática e organizada e deixou tudo registrado em uma carta. Era uma espécie de “diretiva antecipada de vontade”, mostrando como ela se preocupava em nos poupar das decisões mais difíceis. Na carta havia instruções precisas sobre como gostaria que tudo acontecesse: a roupa para o velório, as pessoas que deveriam ser avisadas e até o pedido para não haver missa de sétimo dia e ser cremada. Respeitamos todos os seus desejos.
Na última despedida, enquanto “Ave Maria” de Schubert e o “Noturno” de Chopin tocavam, eu, meu pai, minha mãe e meu irmão, olhamos para seu caixão pela última vez. Foi um momento de profunda dor, mas também de reverência por tudo o que ela representou para nós. Dias depois, fomos buscar suas cinzas, que foram colocadas junto ao túmulo de sua mãe, a minha bisavó Albertina, como ela havia pedido.
Os dias seguintes não foram fáceis. A casa parecia vazia e solitária. Eu, que ficava sozinha muitas vezes por longos períodos enquanto minha mãe lecionava, meu pai também trabalhava e meu irmão estudava, sentia falta da presença reconfortante da minha avó. Mas, aos poucos, encontrei força nas memórias boas que guardava dela.
Anos mais tarde, essas memórias se transformaram no projeto Alice em Versos. Foi assim que eu consegui manter minha avó viva, compartilhando suas histórias, reflexões e amor com o mundo. E, neste mês de setembro, celebramos 1 ano desse projeto que significa tanto para mim e para a minha família.
Agora, Alice em Versos seguirá um novo caminho, mais próximo do que ela amava fazer. Minha avó era apaixonada por colecionar frases de livros, reflexões e pensamentos. Isso a ajudava a refletir sobre a vida e sobre o mundo. Por isso, o projeto continuará com reflexões semanais, um jeito de honrar essa parte tão especial da sua essência. E, claro, sempre que eu lembrar de uma história, voltarei a contá-la.
Além disso, iniciarei outro projeto muito especial, algo que com toda certeza deixará minha avó igualmente orgulhosa. Voltarei em breve para contar mais sobre isso, mas, por agora, quero encerrar este texto compartilhando uma lembrança que guardo com muito carinho.
Na carta que escreveu antes de partir, minha avó deixou um recado especial para mim e para meu irmão: “Li e Márcio, valeu a pena ter vivido para poder amar vocês!” Essas palavras vivem comigo até hoje, assim como o amor que ela me deixou.
Hoje, ao olhar para tudo o que construí e para tudo o que ainda está por vir, sinto que o amor dela permanece vivo em cada escolha que faço, em cada texto que escrevo e em cada memória que compartilho. Minha avó Alice continua sendo meu guia, minha inspiração e prova de que o amor verdadeiro jamais se apaga.





2 Comentários
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Lilian consegui ir vê-la no velório. Meu marido soube e me avisou, foi lá que conheci você e seu irmão. Fazia apenas um mês que havia perdido minha mãe. A minha dor foi muito gde pq queria muito bem a dona Alice, recebi muitos conselhos que ainda levo para a minha vida. Muita saudade e agora lendo o que vc escreveu a tristeza veio forte. Mas que bom saber de todo esse amor que recebeu e está nos dando com suas memórias. Bjo enorme em seu ❤️
Li que homenagem linda à sua vó! Eu conheci a sua vó e a doçura dela, cuidou de vocês com muito amor, um amor especial que se manifesta em sua vida e que você está compartilhando.
Você já pensou em publicar um livro, com estas lindas histórias.
Um abraço carinhoso e b